quarta-feira, 16 de novembro de 2011

poeira fina que o vento leva
de onde veio (interrogação)
por quanto tempo ficará (interrogação)

o pouco que levo
ao longo dos anos muitos

suor e sangue

os embates íntimos
os abraços súbitos
seus beijos

terça-feira, 13 de setembro de 2011

PICADA

É pó, é pedra, é o fim do caminho.

--

Microconto publicado na Teia - Revista Literária dos Discentes da FALE/UFMG.

Um microconto é uma coisa pequena, sintética. Mas é, ainda assim, uma narrativa completa. Que apela ao poético e à multiplicidade de imaginários para se fazer maior que o punhado de palavras que ostenta.


terça-feira, 15 de março de 2011

as gotas

uma gota
um pingo

memórias
minhas memórias

as coisas que vêem e vão

um pouco de mim caído em você
um pouco de você em mim

lembranças demais
a alma encharcada de pingos e lembranças

e das dores do que se foi

saudades sem conta
pessoas sem conta
ganhos e perdas sem conta

e um cansaço
(imenso)
cansaço de contar

--março de 2011 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

memórias e hard-drive

chego de férias e é isso q vejo: hd do desktop desconfigurado, conteúdo perdido. de parte tenho backup, de outra parte, não

então, recuperar meu hd é meio como recuperar minhas memórias

as coisas que me lembro
das quais me lembro
pelos anos afora

são todas meio assim
algo que sei que foi (assim eu penso)
algo que penso que foi (assim eu sei)

sinais de fumaça que se perdem com o passar do tempo
e as coisas que invento prá por no lugar do que eu não sei mais o que é que foi

--janeiro de 2011

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

corpus

faca afiada
cortando o ar

as vísceras expostas
o corpus rasgado
as dores
gemidos odores

os cortes
as cores
 
conceda
Musa
seda

Engenho e Arte
para bem eviscerar

Luz que ilumine
a mim ilumine
sem cegar

amém (exclamação)

--  Setembro de 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

armário novo de aço

armário novo de aço
que comprei prá minha casa

casa velha da tia
casa onde vim
agora
morar

repleta de lembranças de infância
que reviro a cada passo
suspiros sem fim

armário novo que comprei
porque o velho tá enferrujado

retiro reviro removo
panelas
enquanto espero o caminhão chegar

telefone que toca
mas é no vizinho
me batem na porta
mas é no vizinho

os pratos antigos de que me lembro
e me doem e eu nem sei porque
e nem sei o que neles comi

panela de pressão sem lacre e sem vedação
açucareiro de prata que vai virar decoração

armário novo
armarinho simples de aço
panelas
que revolvo
separo
escolho
devolvo

passado ao qual eu remonto
me remonto
tremores
trepidação

--agosto de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

devagar

os dias que se passam
devagar
e eu sem dormir

seu corpo que está distante do meu
seu abraço
aconchego perdido

me levanto
tonto
e me pergunto se chegarei ao fim de mais esse dia

as lágrimas que não param
e que pedem a ação convulsiva do corpo
os descontroles

que escondo

respiro devagar
e agora
acelero

medo de viver

as palavras que te escrevo em segredo e não sei se vou te mostrar

o dia que foi aquele
perdido nos anos passados
mergulhado na agonia funda da dor dos anos passados
mar de lembranças que busco prá me afogar

me perco dos meus próprios afagos
essa coisa frágil e gasta
pequena coisa na qual me agarro e que vejo se despedaçando enquanto me debato nesse mar meu de lembranças sanguinolentas essas lembranças coisas vívivas coisas vivas em mim que em mim me arrastam prá lá prá lá prá lá
prá lá onde vou onde estou que eu vou que não estou aqui

e
de novo
me lembro daquele dia
das dores coisas que sentia
da mente que me escapou
a dor que era forte demais
o sono que me escondeu da dor

mãos minhas mãos que se moviam sem mim
que fizeram o de fazer sem a mim me perguntar
de quem eram as mãos e o de fazer
de quem era o de fazer que minhas mãos sem mim se agitaram prá pegar coisas e tocar bocas as pernas andando a esmo pelo mundo incerto etéreo mundo dos vivos viventes

sono
estranho aquele sono que me invadiu naquele dia de dor distante no afogado do passado

acordei trêmulo
sem saber onde estava
olhar disperso
tonto
escondido da dor

os anos passam
os anos passam
e ela
ela
sempre ELA (exclamação, grito gemido, urro primal, grito de dor profunda, perplexidade)

os secretos que escondo de mim mesmo
minhas lembranças de náufrago

a respiração é acelerada
minha respiração é acelerada
e tenho medo pavor dessa coisa cortante

coisa afiada que gira num círculo torto à minha frente

as pessoas
o que dizer
o que pedem
o que mandam
o pavor que me metem

obrigações
fracassos
deterioração cultivada a cada passo
a solidão companheira

o sono que
por fim
vem

quando bebo
álcool queimando as veias
torrando os últimos e solitários
as células
miasma que em entorpece
e me escondo da dor

me deito
não durmo
os dias que se passam devagar

--outubro de 2010