segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Facção
fotografia
instatâneo
momento
pequeno
fixado no tempo
pedaço
fatia
lasca
minúscula fração das incontáveis possibilidades
inebriantes possibilidades
asfixiante impossibilidade
ah
tão maior que eu
tão imensamente maior que eu
e meus olhos
minha boca
ouvidos
pele
a vibrar
a vibrar com um mundo que não possuo
não posso apreender
mas que me invade
com força
gana
potência
ardor
--Fevereiro de 2010
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Pai
Passo os quadros, lentamente, em busca de intervalos entre diferentes filmagens. Removo esses os tais intervalos, ainda sem muito cuidado. Meu treino ainda é pequeno nessa minha nova diversão.
Em meio a um quadro e outro, olho, paro. Estão lá meus filhos ainda crianças; já se vão mais de dez anos entre o agora e o aqui. Eu sorrio, e eles também. Nem de longe nenhum de nós esperava pelo caminho que ainda teríamos que seguir.
Mais um quadro, e desfio mais uma memória. Lá está ele, e não está morto. O ar já cansado, isso é fácil de ver, as marcas dos anos. Mas tem um sorriso no rosto, pego num desses momentos em que toda a família se reúne e a gente não consegue pensar em nada de ruim.
Ele diz uma palavra, o som está baixo e eu não ouço nada. A câmara se movimenta, ele se vai. Ele se foi.
Os anos se passam, e chega o dia. Naquele dia, recebo um telefonema do hospital. Era quase hora da visita diária, mas o telefonema antecipado denunciou a fatalidade. Um médico do CTI nos chamava para conversar. Expliquei para minha mãe que não havia com o que se preocupar, mas mentia, claro.
Estranho isso, não sentia tanta falta dele naquele tempo. Hoje, vejo essas imagens em vídeo, e sinto falta do homem que a lente via e eu não. Do homem que viu a lente e não me viu.
Os anos se passam e, a cada dia, menos sei. Talvez hoje, mais que nunca, entenda melhor a louca fúria hedonista dele. Mas, será sempre uma compreensão imaginada, uma aceitação não vivida. Quem sabe, quem sabe um dia escrevo sobre isso, sobre tudo que não vivi, talvez escreva como se tivesse estado lá. Talvez o melhor espelho para vê-lo seja eu mesmo e, então, será fácil escrever.
Deve ter sido escrito por Monteiro Lobato, havia alguns livros dele quando éramos crianças. Meu pai tinha uma quantidade incomensurável de livros e eu achava isso admirável. De quando em vez, eu folheava algum e, muito raramente, lia algumas páginas. Talvez, quem sabe... talvez admirasse isso secretamente e nunca tenha admitido. Talvez tenha mantido uma distância segura dos livros e dele tb. E, só agora que ele se foi, me aproximo de uns e outro.
Monteiro Lobato, acho que era isso, um livro com histórias da mitologia grega. Ah, sempre achei isso tão incômodo, os heróis gregos e sua morte trágica. Hércules e seu fim, depois de realizar seus doze trabalhos. Arrancando tiras de carne junto com as tiras de pano de sua roupa, mais próximo da morte a cada tira arrancada.
Me sinto assim, cansado pelos meus próprios trabalhos. Exausto. E arrancando tiras de carne. Mas, diferente dele, a morte não se aproxima. Não hoje, não hoje. Um dia, talvez um dia. Talvez um dia em que estiver mais perto dele.
Termino a edição, nada mais a ajustar. Salvo o filme, e a vida continua.
--Marcus - 2/12/2008
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Jagunços
Sempre que olho para trás, e olho e olho,
eu olho e é sempre isto o que eu vejo.
Uma sucessão infinda de sonhos em real transfeitos,
e também uma sucessão de ilusões perdidas.
De amores-ódios, encontros mais ou menos profundos.
E, ao longo de cada caminho que algum dia ousei percorrer,
e também antes do início, e depois também do fim,
um estoque interminável de lágrimas.
Lágrimas doces, lágrimas amargas.
Mas, sempre e sempre, lágrimas salgadas que me escorrem pelas faces.
E eu me pergunto se tudo se resume a isso, tão só e unicamente a isso.
Viver, e sorrir e chorar, e nunca realmente saber o porquê.
Se somos apenas jagunços em guerra, jogando truco com o coisa-ruim,
pondo um Zap na testa e dando gargalhada do destino,
nos enfiando em mais uma vereda,
errando rumo pelo sertão sem fim,
matando pra não morrer,
pra viver só mais um dia,
só mais um dia pra matar o tempo, o tempo, o tempo...
sexta-feira, 20 de março de 2009
Curriculum Vitae
Mas hoje não. Hoje mergulho na imprecisão.
Cisão.
Meu melhor currículo são minhas muitas cicatrizes.
O corpo repleto de cicatrizes. E a alma?
E também os riscos no rosto.
E as trilhas salgadas das tantas lágrimas há muito já secas.
Um olhar vago, um sorriso discreto e indefinido.
Que mais dizer no meu currículo?
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Crianças
Ela sorriu e disse: "Olha, Prof., o que foi que eu descobri! Se vc se olha de um lado da colherinha, está de cabeça para cima, mas se se olha do outro, está de cabeça para baixo!".
E ela sorriu, e quase gargalhou com sua descoberta. Algo assim como uma criança que descobre que depois de um dia vem outro, que a terra dá voltas no sol, que um metro tem mil milímetros.
Se eu fosse colega dela de colégio, provalemente faria uma carinha arrogante e diria: "Dã, dã, dã! E o que é que vc esperava?".
Felizmente, não sou. Todos os anos de erros e tropeços me serviram para alguma coisa, afinal. E eu apenas fiquei olhando para aquela mulher que, de fato, poderia ser minha fílha e sorri também. Sorri vendo-a se divertir com sua descoberta. Sorri vendo que ela sabia, de fato, a real dimensão das coisas pequenas e grandes da vida. E apenas sorria como criança.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Diário não cronológico de uma aventura teatral
Eu devia ter uns nove ou dez anos, mais de dez certamente que não, quando meu pai nos levou a uma peça de teatro. Sim, sim, claro, era uma peça infantil. Maria Minhoca, Bela Adormecida, quem sabe? No fim de tudo, terminada a peça, o diretor subiu ao palco e falou. De tudo o que ele disse, é só disso que me lembro: "A gente sempre quer passar uma mensagem".
M*RD*! Eu não quero passar P*RR* de mensagem nenhuma! Por trás de cada olhar meu que te invade, por trás de cada minúscula intenção, cada toque, físico ou imaginário, por trás de cada palavra e de cada gota de saliva trocada, só o que existe é uma necessidade desesperada de contar toda uma vida em um instante miséravel de tempo!
Ah, uma necessidade desesperada e fadada a um fracasso desprezível! Cada encontro, sempre tão passageiro, intocável, intangível. MUDO! E, então, mensagem? Escrever uma vida em palavras, colocar numa garrafa, lançar ao mar?
Não, não as palavras, não as palavras nuas, essas não que me atraem. O que me atrai são os sons que elas emitem, sons que reverberam, ecoam. As palavras, algumas delas, têm sons, você sabe, elas têm sons e potência. Ar nos pulmões, garganta, língua que se mexe. Bochechas, lábios, dentes. Essas palavras vibram, lambem, mordem. Essas palavras, disparadas, voam e te atingem no peito; atingem, explodem, derrubam.
Por isso eu falo tanto, mesmo quando calado. E uso palavras fortes, palavras que te fazem vibrar. Palavras que se metem, intrometem. Agradam ou ferem, isso eu não sei. Palavras que te remetem a um outro lugar.
E eu espero, eu apenas espero, em minha solidão e em minha dor, que teu novo lugar seja, ao menos um pouco, próximo do meu. É só o que quero. E eu sei que não é pouco.